Psicólogo em consulta refletindo sobre autoengano de paciente diante de espelho meio iluminado

O autoengano, por sua natureza sutil, pode encontrar espaço no cotidiano clínico de qualquer psicólogo ou psicoterapeuta. Identificá-lo requer algo além da escuta ativa; exige abertura e disposição para autorreflexão constante. Quando estamos realmente atentos, percebemos que, até nós, profissionais, não estamos imunes ao fenômeno.

Por que refletir sobre autoengano é indispensável na clínica?

O autoengano se manifesta em pequenas ações e decisões diárias: no modo como interpretamos relatos, nas hipóteses silenciosas que formulamos e nas atitudes que tomamos diante do sofrimento do outro. Ignorá-lo pode limitar nosso campo de visão, cristalizando padrões pouco férteis de intervenção.

Acreditamos que a prática clínica amadurecida nasce da coragem de questionar a própria percepção.

Reconhecer o autoengano é o início de uma escuta mais autêntica do outro e de si.

Como construir um olhar crítico sobre o próprio fazer clínico?

Selecionamos dez perguntas que podem servir como guias preciosos para quem deseja se aprofundar no próprio processo de observação clínica e identificar pontos cegos alimentados pelo autoengano. São questões que, exploradas com honestidade, contribuem para reposicionar intuição, técnica e ética.

Dez perguntas para avaliar o autoengano na clínica

Listamos, a seguir, perguntas que utilizamos em nossa rotina como pontos de partida para reflexão:

  1. Quais crenças pessoais costumo perceber reverberando nas sessões, mesmo de forma indireta?
  2. Em quais situações sinto uma necessidade interna de “consertar” imediatamente o desconforto do paciente?
  3. Já atribuí alguma evolução ou retrocesso do paciente exclusivamente aos meus métodos, sem considerar fatores externos?
  4. Quando discordo de uma fala do paciente, costumo validar internamente a minha posição ou me abro genuinamente para o diferente?
  5. Quantas vezes, de fato, revisito casos anteriores buscando perceber vieses na minha condução?
  6. Racionalizações aparecem em minha análise de situações de impasse com pacientes?
  7. Tenho facilidade para admitir limitações quando o processo não progride ou busco justificar resultados a partir de explicações genéricas?
  8. Costumo solicitar supervisão ou apoio externo quando sinto dúvidas ou resistências intensas?
  9. Sinto medo de expor os próprios limites diante do paciente, ou percebo isso como sinal de acolhimento e respeito?
  10. Meu interesse em atender certos casos se relaciona com desafios reais ou com expectativas não ditas de reconhecimento?

Ao nos colocarmos diante dessas perguntas de forma honesta, iniciamos um processo de autodiagnóstico que amplia não só nossa autocompreensão, mas também a qualidade da relação terapêutica.

Reflexões sobre cada pergunta

Crenças pessoais e transferência

Ao longo do tempo, notamos como nossas próprias crenças aparecem nos encaixes e desencontros clínicos. Questioná-las amplia a consciência, e permite que a intervenção se baseie menos nos nossos julgamentos e mais no universo do paciente.

A necessidade imediata de consertar

Sentir desconforto ao presenciar o sofrimento de quem atendemos é compreensível, mas a pressa em "solucionar" pode falar mais sobre nós do que sobre o paciente.Permitir-se segurar a angústia, sem buscar atalhos, costuma abrir novas vias de compreensão.

Resultados e atribuição de causas

Quando restringimos os resultados apenas ao próprio método ou atuação, caímos no risco do narcisismo clínico. Em nossa experiência, manter em mente os múltiplos fatores que influenciam qualquer processo terapêutico contribui para uma postura mais ética e menos centrada no eu.

O que fazer ao reconhecer o autoengano?

O primeiro passo é a aceitação. Não como resignação, mas como ponto de partida genuíno para mudanças. O autoengano só perde força quando admitido. O próximo passo inclui buscar formas de atualização profissional, como supervisão clínica, grupos de estudos e a própria terapia pessoal. O olhar externo frequentemente expande aquilo que nossa perspectiva limita.

Psicólogo ouvindo paciente em consultório aconchegante

Reconhecer o autoengano não é sinônimo de incompetência, e sim sinal de amadurecimento.

Quem se permite rever, se permite crescer.

Como tornar essas perguntas um hábito?

Trabalhar essas perguntas pode ser feito individualmente, mas, em nossa trajetória, percebemos excelentes resultados ao compartilhá-las em espaços de discussão, como supervisão e grupos de estudo. Elas funcionam como “espelhos” que devolvem aspectos quase invisíveis da nossa clínica.

  • Separar um momento semanal para revisitar as perguntas
  • Apontar exemplos concretos de situações clínicas recentes
  • Discutir as reflexões de modo coletivo (em supervisão/grupos)
  • Registrar por escrito as percepções e desconfortos
  • Retomar essas respostas periodicamente, revisando-as à luz de novas experiências

Essas pequenas práticas podem transformar nossa maneira de atender, tornando o processo mais claro e alinhado com o compromisso ético.

Grupo de psicólogos em supervisão clínica

O autoengano como fenômeno relacional

Muitas vezes, acreditamos que o autoengano é um movimento isolado, individual. Mas nosso cotidiano mostra que ele nasce também das relações: cada paciente “toca” algo diferente em nós. Algumas histórias ressoam tanto que, sem perceber, julgamos, nos defendemos ou nos identificamos demais.

O autoengano opera, especialmente, quando negamos a influência das relações nos afetos, limites e saberes que circulam na clínica.

Que tal, então, experimentar a audição dessas perguntas de modo aberto, acolhedor e sem pressa, reconhecendo que o erro faz parte do aprendizado?

Conclusão

Percebemos que aplicar perguntas para avaliar o autoengano não é só um exercício intelectual, mas um gesto de humildade. Nossa prática clínica ganha densidade e integridade quando sabemos questionar, reconsiderar e até mesmo mudar de percurso. O convite aqui é simples, mas profundo: incluir o autoquestionamento no cotidiano e, com isso, cultivar maturidade, presença e ética.

Afinal:

A honestidade consigo é a base de qualquer transformação genuína.

Perguntas frequentes sobre autoengano na prática clínica

O que é autoengano na clínica?

Na clínica, entendemos autoengano como os mecanismos conscientes ou inconscientes pelos quais o profissional distorce, minimiza ou ignora aspectos da própria atuação, emoções ou limites. Esses mecanismos podem influenciar hipóteses diagnósticas, interpretações e decisões de intervenção. O autoengano pode afetar tanto a percepção do paciente quanto do próprio terapeuta.

Como identificar o autoengano em pacientes?

Para identificar o autoengano em pacientes, observamos incoerências entre relatos e atitudes, justificativas recorrentes para manter padrões disfuncionais e dificuldades constantes em reconhecer responsabilidades sobre situações vividas. O diálogo aberto e sem julgamento facilita o acesso a esses pontos cegos, sempre respeitando o tempo de cada um.

Quais são os sinais mais comuns de autoengano?

Entre os sinais mais frequentes estão racionalizações exageradas, negação de fatos importantes, mudanças frequentes de argumento, idealização ou desvalorização excessiva de situações, e resistência em abordar temas ou sentimentos incômodos. Esses sinais podem surgir tanto em pacientes quanto nos próprios profissionais de clínica.

Como ajudar pacientes a lidar com autoengano?

Podemos auxiliar ao criar um ambiente seguro, baseado em empatia e escuta ativa, para que o paciente se sinta confortável em questionar suas próprias certezas. O uso de perguntas reflexivas, intervenções respeitosas e acompanhamento gradativo favorecem a superação do autoengano. Reforçamos a importância da paciência, pois esse processo demanda tempo.

Por que o autoengano é prejudicial no tratamento?

O autoengano pode comprometer a eficácia do tratamento, dificultando o acesso às causas reais do sofrimento ou impedindo mudanças necessárias. Quando não reconhecido, perpetua padrões de estagnação e impede a construção de uma relação terapêutica genuína e transformadora. Superar o autoengano é um passo fundamental para avanços clínicos sólidos e duradouros.

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Equipe Coach para Psicólogos

Sobre o Autor

Equipe Coach para Psicólogos

O autor é profissional experiente na área de desenvolvimento humano, com dedicação de décadas ao estudo, ensino e aplicação prática de metodologias para transformação individual. Seu trabalho integra teoria, método e responsabilidade ética, proporcionando reflexões profundas voltadas a psicólogos e profissionais interessados em autoconhecimento. Com uma abordagem fundamentada na Consciência Marquesiana, incentiva transformações reais, mensuráveis e sustentáveis para o crescimento pessoal e profissional.

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